NEPOMUCENO E O METANOL
João Amílcar Salgado
A
primeira anotação do metanol na história de Nepomuceno parece datar da criação
da cachaça MILONGUITA na década de 40 do século 20, pelos amigos João Salgado
Filho e José Antunes Jr (Zequinha). O
farmacêutico Sargado, diante de seu círculo de admiradores, explicou como seria
uma cachaça de altíssima qualidade e que um cuidado especial seria evitar que
contivesse metanol, o álcool indesejado.
Pouco tempo depois, nos degraus dali, morreria o popular ébrio Cai-Nágua
e o dono diagnosticou óbito certamente por metanol. Enquanto o padeiro Eurico
César de Almeida Antunes, irmão do Zequinha, insistia no nome Milonguita para a
nova aguardente, a turma relembrou as pingas famosas da Vila e a campeã entre
elas era a ZUEIRA. Mas o Sargado alertou sobre o nome Zueira, talvez
popularizado por alusão a lotes contaminados por metanol. Para atender a alta
demanda, o fabricante poderia ter descuidado do controle de qualidade e o nome
adotado apontava consequente afecção neurológica. Outro ébrio era o Govêia, de forte pendor para
sambista, que faleceu em coma, pouco tempo após passar a ingerir álcool puro.
Como pesquisador, logo me interessei
pelo espectro sindrômico do alcoolismo, principalmente as causas das variantes
clínicas. Isso trouxe duas consequências principais: o movimento antimanicomial,
iniciado por minha cooperação com o inesquecível amigo Luiz Cisalpino Carneiro,
e minha investigação sobre a relação entre doença de Chagas e o beribéri. Anos depois,
verifiquei que muitos pacientes de úlcera péptica burlavam a dieta proibitiva
de bebida alcoólica, sem prejuízo à cicatrização da lesão. Para comprová-lo, o
mesmo Luiz montou talvez a primeira mensuração da alcoolemia no país, mas os
tubos de sangue cuidadosamente coletados, sofreram pane no congelamento. Bem
mais recente foi a criação do bafômetro.
Em
1974 iniciamos o ensino contraconsumista na Ufmg. Em 1976 foi instituído o
primeiro Procon em São Paulo (de inocuidade extrema). Em 1987, foi criado o
Idec (Instituto de Devesa do Consumidor, idem). Em 1988 foi estabelecido o Sus
(Sistema Único de Saúde - deveria ser único, mas não é) e em 1990 o Código de
Defesa do Consumidor (defesa sem defensor). Em 1991, iniciamos na Revista da
Ammg a tradução da Medical Letter (desde 1958) e do Drug & Therapeutic
Bulletin (desde 1962), que levou ao Boletim de Terapêutica e Medicamentos do
Inamps, graças a Adelmar Cadar. Foi criminosamente interrompido no governo
Newton Cardoso. Em 1999, por proposta
nossa para ser nossa Fda, foi criada a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância
Sanitária – que, enfim, não vigia nem a publicidade, nem a falsificação, nem a
adulteração, nem o contrabando e nem o narcotráfico). Tais aparentes boas iniciativas
atraíram respostas contrárias, a começar pela do pelego Magri que, como
ministro do trabalho de Collor, em 1990, anunciou que ia desregulamentar tudo.
Desde
então, pouca coisa funcionou desejavelmente. Entre inúmeros escândalos, as
mortes por metanol são mera ponta do aicebergue consumista generalizado. Participei
no Senado, representando a convite o Cfm, de um debate em que o então ministro
Magri, olhando para mim, garantiu que qualquer cidadão, mesmo analfabeto, seria
autorizado por ele a exercer a profissão de médico.


Nenhum comentário:
Postar um comentário