ISAURAS
DA VILA
João Amílcar Salgado
A Vila não conta com muitas Isauras. A inesquecível professora
Isaura Assunção deu-me a primeira aula no grupo escolar. Mestra no mais límpido
sentido, com que carinho, com que simpatia nos acolheu naquele dia primordial!
Outra mais recente é a bela Isaura Mendonça, filha do casal Lazinho e Teresinha,
gente muito estimada desde longo tempo. Duas outras não são Isauras, mas as
apelidei de as “Escravas Isauras” da Vila. A primeira é Isabel de Souza, filha do padre
Tomás de Souza, e a segunda é Mariana Januária de Jesus, filha do Cônego
Menezes.
Durante a escravidão, os homens da casa-grande e seus auxiliares
engravidavam as escravas e as filhas mestiças continuavam escravas ou
excepcionalmente eram criadas como filhas ou “afilhadas”, pelo pai biológico ou
“padrinho”. Em Nepomuceno, pelo menos quatro filhas de escravas vieram a ser
matriarcas de queridas famílias tradicionais. Todas foram criadas com carinho,
mas duas delas foram excepcionalmente educadas por genitores sacerdotes,
coincidentemente sucessivos dirigentes da futura matriz da Vila. Isabel Maria de
Souza, filha do padre Tomás de Souza, casou-se com Francisco Alves Garcia, o
célebre Chico Frade. Mariana Januária de Jesus, filha do Cônego João
Evangelista de Menezes, casou-se com João Inácio de Castro Dias, codirigente da
Vila. No caso da Escrava Isaura, na trama ficcional de Bernardo Guimarães, ela
foi submetida à violência de seu novo proprietário. Isabel e Mariana, ricas herdeiras, ao
contrário, viveram felizes no seio da comunidade nepomucenense. É imperativo
que o nome da mãe de ambas (também da mãe de meu tetravô Casaquinha e das
demais mencionadas) seja conhecido.
Vale assinalar que a primeira mulher advogada no Brasil, é uma
negra ex-escrava que coincide ter o sobrenome Garcia. Seu profético nome é
Esperança Garcia. Nasceu no Piauí cerca de 1751. Escreveu uma petição (leia-se
o manuscrito preservado) ao governador Gonçalo Botelho de Castro, solicitando
que ordenasse ao feitor da Fazenda Algodões cessar os espancamentos de seu
filho e de sua gente. Por outro lado, na história da medicina brasileira foi
motivo de polêmica a questão das mães-pretas ou mães-de-leite. Muita gente
importante foi amamentada por mãe-preta. Minha mãe é irmã-de-leite de nosso
primo Guaraci Lopes Cançado.
Por último, mas de não menor importância, o ouropretano Bernardo
Guimarães teve herdeiros sulmineiros. Seu filho Pedro Bernardo e seu neto
Armelim Bernardo, ambos engenheiros, são também ilustres historiadores de
Itajubá, sendo um itajubense adotivo e o outro nativo. Ambos, como eu, são de
uma categoria imprescindível, os historiadores municipais.




