João Amílcar Salgado

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

 COMEÇO DA ESQUERDA EM NEPOMUCENO E REGIÃO

João Amílcar Salgado

No período colonial a esquerda brasileira foi representada pelas missões jesuíticas, que implantaram, no sul, aldeamentos organizados numa espécie de comunismo cristão, coerente com a cultura guarani e inca. Mais ao norte, os civis esquerdistas eram os republicanos. Chegaram a atos revolucionários chamados posteriormente de inconfidências, a partir do nome da Inconfidência Mineira, cujo herói foi o esquerdista Tiradentes (este com vários parentes em Nepomuceno). No Império, os esquerdistas eram igualmene denominados republicanos, sendo o principal o médico mineiro Antônio Gonçalves Gomide (também com parentes em Nepomuceno), notável constituinte inaugural e senador. Os republicanos se opunham aos monarquistas (direitistas) e aos liberais (centristas).

Em Três Pontas ficaram conhecidos os ativistas republicanos Cônego José Maria Rabelo (sucessor do Cônego Vítor) e seu primo, o tabelião João Ferreira de Abreu Salgado (bisavô do João Amílcar Salgado). Esta linhagem ideológica chega até aos trinetos.

O ilustre pedagogo Mário de Castro Chaves (avô da Dirce Chaves) fundou em Boa Esperança o célebre Colégio Dorense, internato e externato, considerado uma verdadeira universidade, de nível semelhante ao do Liceu Mineiro,  Caraça, Colégio D. Bosco e Colégio Santo Antônio de São João del Rei. Seu filho Renan Chaves recebeu o prenome em homenagem ao esquerdista francês Ernest Renan. O também poeta Chaves se considerava parente do inigualavel poeta Castro Alves, o mais ilustre esquerdista da Bahia, sucedido por João Mangabeira.

Em Nepomuceno, o mais notável republicano foi o Neca Correa (Manoel Correa Lima, tio bisavô de João Amílcar Salgado) que se celebrizou, ao lado de liderados, por proclamar a República três meses antes de Deodoro, em S. José do Rio Pardo, SP. Mais recentemente, importante esquerdista nepomucenense foi o Luís Barbeiro (Luís Gonzaga da Costa). Ele e os irmãos Nico e Bilica são descendentes do patriarca lavrense Marnoel da Costa Vale, de qem descendem também as famílias Ribeiro, Lima, Pedroso e Teófilo. Coligou com Ademar de Barros, que o fez aliciar camponeses, cada qual recebendo uma enxada.  O presidente Jango saboreava a prosa do Luís e o tratava por comendador. Antonio Pereira, genro do Barbeiro, foi preso no primeiro dia do golpe de 1964. A Bilia sucedeu o pai Luís, sendo que o influente político Carlos Eloy a considerava excepcional estrategista eleitoral.  O sobrinho da Bilia, o médico Francisco Luís Costa, foi iniciando do João Amílcar na Faculdade, quando acolitou o esquerdista Célio Garcia. Ao lado deste, recepcionou o pensador internacional de esquerda Michel Foucault.

A atual esquerda da Vila é um grupo brilhante e muito promissor


segunda-feira, 26 de outubro de 2026

 


OS VITORIOSOS SOMOS NÓS
O povo brasileiro e nossa democracia estão em festa pela vitória do Lula. Neste 2º turno, ele obteve, de virada, 4,4 milhões de votos a mais do que Flávio, enquanto, no 2º  turno de 2022, Lula obteve 2,1 milhões a mais do que Jair. Para esses 4,4 milhões, houve a vitória em Minas, também de virada. Como atento observador, verifico que Lula foi iluminado por um heroísmo definitivo, ao derrotar a grande imprensa, os principais canais de tevê, a rádio mais importante de Minas, as plataformas da internete, a bolsa de valores (com ameaça de ataque especulativo), os neopetencostais, os neonazistas, as corporaçãoes econômicas (inclusive parte do agronegócio) -  e, acima ou atrás de todos, o Marco Rubio. Esse pessoal apoiou o Flávio abertamente ou disfarçadamente ou envergonhadamente. Enquanto quem apoiou o Lula foi gente muito mais poderosa: o povão brasileiro!

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

 


CELEUMA NA PENA DE MORTE

João Amílcar Salgado

Escandalosa falha na execução da pena de morte ocorreu em 30 de setembro de 2026, no Tennessee, EUA, quando a condenada Christa Pike  sobreviveu à injeção de duas doses reiteradas de pentobarbital. Isso me fez lembrar que, em 1986, eu estava na Universidade Estadual da Pensilvania numa reunião, cujo tema principal era a humanização da medicina. O coordenador disse que eram pioneiros na área desde 1967 e soube de algo parecido no Brasil. Pediram-me para expor e iniciei dizendo que vinha acompanhando tal preocupação geral no mundo, desde o agravamento do consumismo em saúde. Sugeri que o desafio ali então era resolver pelo menos cinco questões.

1. Se a medicina ocidental tem origem hipocrática, ela é humanizada de nascença. Se isso é fato, por que veio sendo desumanizada a ponto de necessitar ser humanizada novamente?  

2. A ideia de humanizar na área da medicina não é tão nova. Exemplo é a decisão, em 1890, de oficializar a cadeira elétrica (proposta pelo dentista Alfred Southwicke) para a “humanização” da pena de morte, antes efetivada por enforcamento ou fuzilamento. Esta “humanização” foi aprimorada, em 1977, por injeção letal, obviamente prescrita e realizada por médico. A poderosíssima Associação Médica dos EUA proibiu qualquer médico de prescrever ou realizar tal ato. Até o presente, não tenho notícia da punição de qualquer médico executor, muito menos de qualquer punição contra Jay Chapman, o médico legista idealizador.  

3 Tudo é urgente, e mas mais que tudo urge ‘humanizar” o desumano comércio de órgãos e tecidos, especialmente restos abortados de adolescentes, noticiado justo naquela manhã

4. A iniciativa inaugural de George Harrell deve ser aplaudida, mas corrigida. Como não reestruturou a graduação profissional, o mero acréscimo humanizador corre o risco de frustrar o objetivo.

5. A principal reestruturação consiste em substituir os padrões competitivos da formação universitária por padrões cooperativos. Ótimo exemplo dessa inovação é a proposta da formação, ainda na graduação, de equipes mínimas de três médicos, capazes de alta resolubilidade de problemas de saúde, em pequenas cidades.

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

 

AFONSO PAVIE E SEBASTIÃO GUSMÃO

João Amílcar Salgado

Neste dia 14/10/26 a Academia Mineira de Medicina viveu evento inesquecível. Sebastião Gusmão, um dos três maiores neurocirurgiões do Brasil, pronunciou a conferência DR PAVIE DE ITAMARANDIBA, com o subtítulo “Dr. Afonso Pavie: das esmeraldas à moderna medicina mineira”. Foi a ocasião para o reencontro da velha guarda da medicina mineira, com o abraço saudoso de colegas sumidos uns dos outros. O livro que acaba de ser lançado, e que deve ter versão francesa, ilumina a trajetória impressionante desse homem que desembarcou no sertão do Jequitinhonha em momento único não só para o lugar, mas para Minas, para o Brasil e para a medicina mundial. A documentação fotográfica que exibiu é espantosa. Agora que o Brasil é enaltecido internacionalmente no mundo cinematográfico não faltará gente capaz de levar tão sensacional história para as telas

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

 


TITO MENEIZ E ZÉ PIRAQUARA

João Amílcar Salgado

Em minhas gostosas conversas com o Tito Meneiz, recolhi dados preciosos da história da Vila. Numa delas ele me pegou de supetão: donde vêm os Menezes? Foi quando lhe informei que meus estudos indicam serem descendentes do primeiro faraó MENÉS e de seu filho MENESÉS. Já os daqui seriam Teles de Menezes, vindos para Minas, em busca de resgatar sua nobiliarquia com nosso ouro. A mais linda das filhas do Tito, Maria José, guarda semelhança com o retrato clássico de Leonor Teles de Menezes. Ele marejou os olhos e respondeu:  “quem mais precisa saber disso é a gente metida a besta daqui, que pensa ser mais importante que os outros”. Aproveitei para dizer que os Mendonça têm origem parecida. Descenderiam do homem mais rico do Brasil no comecinho de Minas: Salvador Furtado de Mendonça, também provindo da mais alta nobreza e filho de Maria Cubas, da família de Braz Cubas.  O Zé Piraquara repetia sempre em nossa farmácia três nomes: Quebra-Panela, fazenda de seu sogro, Dona Mariana, sua prima, e João Meu Filho. Pena é que na época eu ainda não sabia da origem fidalga da Dona Laquita.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

 

ABEL FIGUEIREDO ROSSI

João Amílcar Salgado

 

Entre os internos do colégio marista em Varginha, fiquei feliz ao encontrar dois irmãos de Coqueiral: Abel e Reginaldo, portadores do mais irremovível sotaque das nossas cidades. Mais alegre fiquei quando me disseram que tinham sido alunos e eram fãs da tia Cotinha em Santana da Vargem. O Antônio do Banico, marido dela, era parente deles. O Juca, pai deles, foi o difusor do gir em nossa região. O Elpídio Rodrigues comprou dele um magnífico exemplar e o mostrou a meu pai, no curral que tínhamos na rua João Inácio Dias, 416, fundo de nosso quintal.  O Reginaldo chegou a começar um namoro com minha irmã Maria. O Abel se diplomou primoroso médico dois anos depois de mim na UFMG. Foi ser anestesista e clínico em Sete Lagoas. Em sua fazenda em Inhauma continuou pecuarista do gir jaguané e criador de galo músico. Prometeu-me um casal mas não fui buscar. É vizinho de fazenda de outro médico sulmineiro, Caio Manso.  Como eu, tornou-se escritor, autor de livros com títulos curiosos:  O QUÊ QUE HÁ NA MORINGA DO MURIMBÁ e UM RECRUTA NA SORBONNE, que compõem nossa rica tradição literária.

terça-feira, 22 de setembro de 2026


 

CHÁ DE CONGONHA EM 1776, EM NEPOMUCENO

Joáo Amílcar Salgado

Como era o café-da-manhã nas primeiras fazendas da Vila, por volta de 1776? Ainda não havia café, mas havia a congonha. O pequeno rio que atravessava o lugar era chamado de Congonhal. A congonha mineira é um arbusto florescente entre a montanha mineral e a mata atlântica. Para a bebida, basta ferver 1 litro de água, despejar em cima de 1 ou 2 colheres-de-sopa das folhas secas de congonha douradinha, ou outra variedade, abafar por 10 a 15 minutos e coar. Antes de ser substituído pelo café, o açúcar se fez disponível e o chá de congonha passou a ser caramelizado, tal como ocorreu com o leite. Nosso fundador Mateus Luís Garcia chamou seu lar de Congonhal e nosso Casaquinha nasceu exatamente na cidade de Congonhas.

De fato, Congonhas são muitas: uma cidade histórica, Congonhas do Campo, donde veio a família Ribeiro Lima da Vila, outra cidade histórica Lagoa Santa, originalmente Congonhas das Minas de Sabará, uma cidade nossa vizinha, Congonhal, a citada fazenda primordial da Vila, outras fazendas e locais se referem à congonha. Congonha para nossos índios quer dizer revigorante. Todos as civilizações desfrutam de uma bebida revigorante e/ou inebriante: chá, café, salgueiro, papoula (ópio), tabaco, coca, cola, guaraná, maconha (causadora da fúria assassina), mariri, chacrona, peiote (mescalina), tarragon, teixo, meimendro (causador da fúria viking), muscimol, estramônio e outras.

As variedades de congonha são rubiáceas, como o café,  ou malvácea ou ochnácea ou aquifoliácea: Congonha-de-bugre (Rudgea viburnoides); Congonha bate-caixa (ou caixa de guerra, Palicourea rigida)) - de folhas grandes e grossas que, quando batidas umas nas outras, fazem som; Congonha douradinha (ou de folha miúda, Waltheria communis) - conhecida pelo tom verde-amarelado ou dourado, e saborosa; Congonha de cinco folhas: de coloração amarelada na parte inferior das folhas, Sparattosperma leucanthum; Congonha amargosa, do gênero ilex como o mate.

 

Veja-se o vídeo https://youtu.be/uIbr25b-nx4.