João Amílcar Salgado

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

 ANTECEDENTES HISTÓRICOS DE CARMO DA CACHOEIRA


João Amílcar Salgado

No rastro de Francisco Bueno da Fonseca, Manuel da Costa Vale, Luiz Gomes Salgado, André Martins Ferreira e Maria de Souza Monteiro, os 5 de origem judaica, egressos da região lusa entre Braga e Porto, que aqui chegaram atraídos pelo ouro das Lavras do Funil, vieram as familias Rattes, Branquinho, Gouveia, Gondins, Reis, Caldeira e Ximenes, de origem semelhante.  Estes vieram para lugar deserto, ou seja, não ocupado por aqueles, o qual veio a ser Carmo da Cachoeira. A múltipla tentativa de registrar a história local produziu documentos considerados insatisfatórios, até que Luiz Eduardo Vilela de Resende (Vilela como eu) começa do começo, ou seja, faz a revisão crítica desde os fatos que antecederam a formação da cidade. Seu livro A HISTÓRIA QUE ANTECEDEU CARMO DA CACHOEIRA (2023) é gratíssima surpresa para os historiadores de nossa região.

Desde meus tempos de colégio em Varginha conheci amigos cachoeirenses, a começar pelo ex-seminarista José Ferreira, professor no ginásio de Nepomuceno, e pelo excelente violonista e campeão de sinuca Chancha, que veio conosco para a Capital. Meu ex-aluno e ex-estagiário Francisco Caldeira Reis foi encaminhado por mim ao Canadá, donde voltou astro em pneumologia pediátrica, sendo meu parente pelo Caldeira. Alcebíades Viana de Paula, co-herdeiro das terras de João Urbano Vilela de Figueiredo e parente de meus filhos, foi meu companheiro em pesquisa etnológica e histórica, inclusive sobre os habitantes precabralinos de Carmo da Cachoeira. José Alvarenga Caldeira, meu querido Matinata, é notável ginecologista e expoente da ética médica. Chryso Duque de Rezende, colega de República, e seu pai Moacir Resende, são meus eternos amigos. Guardo, como gente estimadíssima, o nepomucenense João Otaviano Veiga Lima, primo de minha mãe, e os primos Veiga Lima.

Os fatos históricos relacionados a Carmo da Cachoeira registrados em meus textos têm um fascínio todo especial: a fazenda Salto de meu colega de turma Fábio Araújo Reis, sendo que a fazenda e ele com seu pai (também médico, Osvaldo Campos Reis, contemporâneo de meu pai no Colégio Santo Antônio de S. J. del Rei) merecem cada qual um livro, as legendas dos Mandiboias, dos quilombos Gundum, Boa Vista, Chamusca e outros, do Sete Orelhas, do Mingutinha, dos Justiniano dos Reis, do mesmo João Otaviano, da raça Mangalarga (a partir das éguas marchadeiras veadeiras selecionadas na indústria primordial do Couro do Cervo), da epidemia de varíola, do cemitério de escravos e da seita de charlatanismo médico. Aproveito para denunciar a procrastinação criminosa da pista-dupla Três Pontas–Carmo da Cachoeira. Daí que o futuro livro da história cachoeirense será volumoso, tendo como capítulo inicial esta oportuna publicação do pesquisador-nato Luiz Eduardo.



sábado, 9 de novembro de 2024

 BH DOS ANOS DOURADOS: LEITERIAS CELESTE E TIROLESA

João Amílcar Salgado


Eu era terceiranista de medicina e desde o vestibular sempre passava pela leiteria Celeste, quase em frente ao cine Metrópole. Era para beber, em vez de leite, vitamina de fruta, que era higiênica e gostosa. Os balconistas eram muito gentis e brincalhões, mas o caixa parecia ser filho do dono e estava sempre de cara fechada. Um dia pedi uma vitamina, como das outras vezes, e ele simplesmente disse: hoje não vou vender nada prá você, porque não vou com sua cara. Fiquei atônito, sem saber como reagir. Simplesmente saí dali pensativo, procurando uma explicação para aquela atitude. Por causa disso, voltei a frequentar a antiga lanchonete Tirolesa no edifício Dantês. No ano seguinte, eu estava no plantão do pronto-socorro, quando chega um acidentado por lambreta. Mesmo estando ele ensanguentado, deu para reconhecer o rapaz que não ia com a minha cara. Ele também me reconheceu e quis levantar-se da maca. Seus traumas não o permitiram e ele fechou os olhos, reabrindo-os parcialmente a seguir. Atendi-o muito bem, mas em silêncio. O Álvaro, quintanista chefe da equipe, se aproximou e disse: parece que já conheço este jovem. Respondi: ele trabalha na Leiteria Celeste, é meu amigo.

Acho que em 1963, houve um desfile de escolas de samba do Rio, na avenida Afonso Pena. Eu e minha namorada estávamos em ponto ótimo para apreciar o rebolado das mulatas. Depois da passagem de umas três escolas chegou um brutamontes entrão, também com uma companheira, e ficou na minha frente. A mulher disse a ele que estavam atrapalhando nossa visão. O mal-educado respondeu que os de trás mudassem de lugar. Daí passou a nos empurrar com as costas, para subir o pequeno degrau onde estávamos. Achei que aquilo era um desaforo e resisti. Ele então me deu uma bundada bem forte e se virou com o braço erguido para me atingir. A bundada no baixo ventre me fez agachar e com isso escapei da pancada que acertou o rosto de um vizinho bastante corpulento. O agressor e o atingido rolaram numa poça da sarjeta. Bem longe dali e bem escondidos de tudo, conseguimos ver o final de uma surra homérica, bem aplicada ao grosseirão.

A Tirolesa era da família Távora, de dois colegas e grandes amigos na medicina: Eduardo “Cabeludo” e Olímpio. Nos maristas fui contemporâneo e também muito amigo do Fernando Távora. Mais tarde estudei essa gente, ligada aos Ferreiras da Vila.


terça-feira, 5 de novembro de 2024

 BODAS DE OURO DE PEDRINHO E IVANILDE

                                                                                João Amílcar Salgado

segunda-feira, 4 de novembro de 2024


 DO APÓSTOLO MARCOS AO ZÉ-LIGRIA

                                                                            João Amílcar Salgado

    Segundo Marcos, Jesus abençoou cinco pães e dois peixes, os quais multiplicou aos milhares, a ponto de alimentar 5000 pessoas. Já Santo Antônio distribuiu furtivamente aos pobres todos os pães do convento. O frade-padeiro deu pelo sumiço e comunicou que naquele dia não haveria pão. O santo pediu que conferisse melhor e o religioso se maravilhou com a grande quantidade encontrada onde, pouco antes, nada havia. Enquanto isso, na Vila, estávamos no café da tarde e a porta da copa estava como sempre aberta. Aparece o Zé-Ligria e meu pai pergunta “que deseja?” - Só vim pidi um pedá de pão – - Pão não tem! – Bigado... (e foi saindo) - Espere, pão não tem, mas tem pão-de-ló e broa..., qual cê qué? – Heim? Uai... carqué tá bão, uai!. Ele recebe uma roda de pão-de-ló, outra de broa  e meia rosca-da-rainha, que lotaram seu embornal. Ficou tão comovido que parou de rir e o surpreendemos rarissimamente sério. 

Deram-me uma foto do Ligria puxando o cego Avelino por um cabo de vassoura. Guardei a figura tão bem que está desaparecida... O notável artista Edson Brandão fez um retrato imaginário do Aleijadinho e me perguntou: ficou bom? Respondi: você acabou de desenhar o Zé-Ligria, com cara de dor!; por favor, redesenhe-o rindo...


terça-feira, 29 de outubro de 2024

 


IZAO CARNEIRO SOARES

Erudito e romântico cultor da história da medicina

João Amílcar Salgado

 

O médico Izao Carneiro Soares é exemplo definitivo da eficácia dos congressos de historia da medicina promovidos anualmente desde 1997. Sem isso não teríamos possibilidade de sequer ficarmos sabendo da existência e das atividades desta notável figura da medicina brasileira. Ele criou em Ribeirão Preto, SP, o museu Abrahão Brickmann e o Instituto Homeopático François Lamasson. Logo em nossos primeiros encontros percebemos nele a satisfação de verificar  a ausencia de preconceito dos historiadores da medicina para com a homeopatia. Ao contrário, observou que nosso apreço é igual por todas as correntes da medicina, senso lato.

De sua parte também ele conquistou a todos por sua erudição e por sua alma de artista. Só de ser homeopata, esperantista e museólogo seu perfil romântico está plenamente confessado. Seu trabalho sobre a biografia e a autobiografia de  Samuel Hahnemann é consulta obrigatória para qualquer estudioso da medicina européia do século 19. Teve acesso a preciosos documentos e visitou cada lugar da vida do fundador dessa corrente homeopática, que sempre deve ser estudada em comparação com outras correntes homeopáticas, sobretudo as não-européias. 

Outro dote deste homem incomum é o musical. Sua voz de cantor é similar à de Nelson Gonçalves, sendo fã incondicional de Noel Rosa. Em 1910, em Patos, MG, ele homenageou os cem anos do ex-estudante de medicina Noel, que sendo Rosa, tem parentes em Minas. O genial sambista chegou a morar com uma tia em Belo Horizonte, onde tentou curar sua tuberculose, que o matou aos 27 anos.

Isao nos propôs um estudo do possível parentesco  entre Noel Rosa e João Guimarães Rosa, sendo que Noel começou a estudar medicina no ano seguinte à formatura de João em 1930. Ouçam o doutor Isao cantando um samba de Noel, composto sob inflencia do curso de anatomia, no qual mistura artérias e veias:

 http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=non-AulSGwU#t=131

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

 


MEU ASSESSOR QUILOMBOLA

Em meu estudo dos quilombos de Nepomuceno, os três que me marcaram desde a infância foram o da Bacia, o da Bárbara e o do Retiro. No primeiro, o retireiro chefe Bernardino era aquele que me enchia o copo de leite, ao pé da melhor vaca, a Tiana é a que me servia o “de cumê” e a jovem Pequena é que me pageava. Do segundo, eu ouvia, nas noites da Trumbuca, os atabaques comandados pelo chefe Lolão Do terceiro, vinha o cargueiro de jabuticabas gigantes que o Jagunço Chefe-de-Congado reservava com carinho pro Sô João Sargado. O verdadeiro Retiro me veio do Miguel e do Toninho. Adiante fui ficando cada vez mais dependente do Pedro Cirino de Oliveira, a ponto de promovê-lo a assessor permanente. O dia-a-dia da Bárbara, as plantas e os passarinhos – tudo isso ele me delatou. Adotei em plenitude sua reverência a seu avô, o sábio Lolão. Que conversas infindas não teria eu com esta figura maior da história de nossa Vila, a qual só não alcancei por capricho do destino.

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

 


LANÇAMENTO NA UFMG DE “A PACIENTE BERENICE DA DOENÇA DE CHAGAS”

João Amílcar Salgado

 O lançamento do livro “A PACIENTE BERENICE DA DOENÇA DE CHAGAS” na UFMG, em 17/10/24, foi muito prestigiado e dele fez parte a homenagem a Jarbas Juarez, autor, junto com João Vinícius Salgado, de preciosas ilustrações da obra. Também foi demais elogiada a bela capa de autoria da arquiteta Ana Luiza Machado Salgado. Esta e sua irmã, a advogada Thaís Machado Salgado, duas lindíssimas netas do autor, deram um show de elegante recepção a todos, em apoio à professora e dirigente da OAP Magda Veloso e à jornalista Leila Lobo Faria.. O evento foi também alegre oportunidade de reencontro com colegas, amigos e parentes.  O livro pode ser adquirido pela Amazon e pela  Coopmed.