João Amílcar Salgado

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

 


FOTO RARA DO JÚLIO, DO TIÃO, DA CÉLIA E DA BILIA

João Amílcar Salgado

Esta foto é importante para mim porque traz dois de meus colegas de ginásio e duas amigas de infância e juventude, todos os quatro muito queridos. O JÚLIO PENHA foi meu colega e logo na primeira série se revelou excepcionalmente disciplinado, muito bom em nosso idioma e orador a qualquer pretexto. Seu dote é cultivado por irmãos e filhos e, em especial, pelo Julinho, nosso fraterno amigo. A oratória do Neca e de toda a família é característica de Penhas e Penas (famílias de mesma origem em Portugal). O SEBASTIÃO CARVALHO foi, ao lado da Julinha Miguel, do Gusa Felicori, do Alberto Vilela e do Aroldo Peixoto, meu comparsa de gargalhadas por 4 anos nessa turma, talvez a mais hilariante de todas. O inegável carisma do Tião e sua franca simpatia o poderiam ter levado à carreira política fora da Vila, não fosse sua modéstia incomensurável. A CÉLIA BOTELHO foi assessora decisiva dos melhores de nossos prefeitos, por longos anos. Dona de incomum inteligência, se fez inevitável autora de um capítulo de meu livro “NEPOMUCENO – SÍNTESE HISTÓRICA”. Já a BILIA representa a transformação radical da meninota valente na obstinada líder, última esperança dos mais humildes e de qualquer necessitado. Incansável para todo tipo de socorro, seu tirocínio político ficou famoso entre parlamentares da capital. Carlos Eloy me disse: a Bilia é o mais raro talento político que conheci. Restou inesquecível para mim sua alegria em dizer que seu filho Raul é o maior amigo de meu filho Carlos. A molecada de nosso tempo apelidou a Bilia de Biliô, referência ao valente ator de bang-bang, Bill Elliott. O Eloy, também admirador do Lívio, formou comigo pela UFMG, ele para advogado, eu na medicina.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

 O MEMORIAL QUE ESTAVA FALTANDO


João Amílcar Salgado

COMO UM BELO PRESENTE DE NATAL A BH E A TODOS NÓS, ACABA DE SER INAUGURADO NESTE DEZEMBRO DE 2024 O MEMORIAL FERNANDO SABINO

LOCALIZADO NO Mercado de Origem

Rua Adriano Chaves e Matos, 447 – Olhos d’Água

Oeste. 30390.552 BH

DOIS LIVROS DO FERNANDO, “O ENCONTRO MARCADO” E “O GRANDE MENTECAPTO” SÃO ABORDADOS NO MEU LIVRO “O RISO DOURADO DA VILA”. SÃO REFERIDOS INCLUSIVE NA ORELHA DA CAPA. TAMBÉM APARECE AÍ SEU IRMÃO GERSON SABINO. A ESPOSA DE FERNANDO, HELENA, FILHA DO BENEDITO VALADARES, É PARENTE DOS RIBEIROS DA VILA. ELE DEIXOU SEU EPITÁFIO: “AQUI JAZ FERNANDO SABINO, NASCEU HOMEM, MORREU MENINO” 



domingo, 15 de dezembro de 2024



 BASHAR E A BANDA-POBRE DA MEDICINA

João Amílcar Salgado

Como estudioso da história médica me é inevitável localizar o médico Bashar al-Assad na banda-podre da medicina. Quando programei, em nosso curso de história da medicina, uma aula intitulada “Médicos Criminosos”, um colega da Congregação da Faculdade me apareceu para desaprovar a iniciativa.  Lembrou-me que o Centro da Memória deveria primar por exaltar as grandes vitórias da medicina contra as doenças e a morte. Observei-lhe que eu criara este Centro, antes de tudo, para primar pela verdade e pela isenção. Assim, causaram impacto as monstruosidades perpetradas por médicos ao longo da história: manipuladores de venenos, alquimistas aliciados, caçadores de bruxas, a serviço da  inquisição, da escravidão, da Ku Klux Klan   do hitlerismo, dos fascismos italiano, japonês e do apartheid, da experimentação em cobaias humanas nos EUA, na Europa, na África e na Ásia,  da falsificação de doenças e remédios, dos executores de pena de morte e dos torturadores nas ditaduras em geral, bem como a avalanche do baixo e alto clero de mercadores travestidos de doutores  E, na introdução, acentuei que a banda-podre da medicina está embutida na origem antropológica do médico, traduzida, aliás, na novela “Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde” (1886), do escocês Robert Louis Stevenson (livro e filme citados em “O Riso Dourado da Vila” (2020).

O jovem sírio Bashar graduou-se médico em Damasco e, de 1992 a 1994, se especializou em oftalmologia no Western Eye Hospital de Londres. O irmão mais velho Bassel estava sendo preparado para suceder o pai ditador Hafez, mas faleceu em acidente em 1994. Bashar retornou para ser preparado para substitui-lo. O pai morre em 2000 e o substituto com 34 anos assume o poder. No início, o novo ditador falava de “transperência, democracia desenvolvimento, modernização, responsabilização e pensamento institucional” certamente por influência de sua recente esposa Asma al-Ahkras, egressa de Harvard. Com o tempo metamorfoseou-se num sanguinário déspota. A convivência universitária foi substituída pelas lições do guru Putin, que não teve dificuldade em usar a formação médica do discípulo para forjar tenebroso utilizador e armazenador de armas químicas e biológicas.

Trump, outro aprendiz de Putin, desafiaria Harvard em seu próprio quintal e por pouco não encarcerou o notável epidemiologista Anthony Fauci, aquele que aniquilou, com luminosa argumentação científica, seu negacionismo tresloucado, causador de muitas mortes, até hoje não totalmente contabilizadas. Para isso Trump contou com forte ala da banda-podre da medicina ianque. Um tirano pode ser negacionista, mas qualquer médico, para ser negacionista, tem de violentar-se dolorosamente, tanto em sua formação, como em sua consciência. Antes eu havia estudado este fenômeno no caso da escravidão. Desde meus bancos escolares jamais consegui entender como um sacerdote poderia ser senhor de escravo e, pior, perdoar os senhores de escravos. E meu “Mestrinho” Mário Esdras me disse: quando a má prática é institucionalizada, perdemos a capacidade de percebê-la. Foi assim que Putin teria ensinado a Bashar: não deixe de ser prolongadamente sanguinário, para que a coisa se institucionalize e no fim você será até santificado. Após a 2ª eleição do Trump, os neonazistas dos EUA sonham com isso para os próximos anos.


domingo, 8 de dezembro de 2024

 ASSASSINATO

 EM NOVA IORQUE

João Amílcar Salgado



O principal executivo de um dos maiores planos de saúde dos EUA, Brian Thompson, foi assassinado em Nova Iorque, em 4/12/2024. Nas cápsulas dos projéteis mortais estavam escritas palavras que são o título do livro DELAY, DENY, DEFEND (2010), escrito pelo jurista (já falecido) Jay Feynman. Quando esta obra foi publicada, causou enorme repercussão por documentar fortíssima denúncia contra empresas de seguro de saúde (HMO), denunciação, aliás, iniciada pelo notável documentário SICKO de Michael Moore, de 2007. Thompson, de 50 anos, geria a UNITED HEALTHCARE, fundada em 1977, que, no último trimestre, faturou 100 bilhões de dólares de 51 milhões de clientes.

Este homicídio me impactou especialmente porque, em 1986, estive nos EUA, onde entre minhas indagações estavam a dimensão e o papel dos planos de saúde, naquela época em expansão. Demais, dois anos antes, houve o escândalo do caso Baby Fae na faculdade  Loma Linda dos adventistas, enquanto, entre nós, iniciara-se a Golden Cross, plano de saúde pioneiro, inspirado na assistência a ribeirinhos, prestada por adventistas em Pirapora – daí competidora de nosso internato rural. Apesar da trajetória controversa da Golden Cross, nada impediu que seu fundador Milton Soldani Afonso, batizado adventista ao 15 anos, se transformasse, de menino nova-limense vendedor de doces, em um dos maiores bilionários do país. Antes de Baby Fae, eu próprio iniciei um livro sobre ética dos transplantes, a convite de Aparício Silva de Assis, que foi frustrado por tentativa de censura contra o esboço de meu texto.

Nos EUA, solicitei entrevista com algum dirigente da Kaiser, fora da agenda. Uma médica, que tinha estado em nosso país, se prontificou a conversar, mas pediu sigilo. Perguntei se ela conhecia a Golden Cross e ela disse que sim e que a Kaiser acompanhava a pequena Golden Cross como estratégia para desembarcar no Brasil. Falei sobre a compra de faculdades de medicina e ela comentou que, quando chegasse ao Brasil, sua organização poderia comprar de uma só vez todas as faculdades privadas e forçar o governo a privatizar as públicas.

{Em tempo: o sobrenome Feynman coincide significar originalmente Salgado}. 


sexta-feira, 6 de dezembro de 2024


 FOME E DESEMPREGO EM QUEDA

João Amílcar Salgado

Honra indelével me liga ao Betinho e ao Henfil. Herbert José de Souza, o Betinho, era apenas dois anos mais velho que eu. Em 1950, sendo hemofílico, ficou tuberculoso, fato que atrasou seu estudo colegial e o fez meu contemporâneo no Colégio Estadual e na UFMG. Ambos estivemos atentos às doutrinações do dominicano frei Mateus (sobre Mounier) e do padre William Silva (sobre S. Tomás), pela JEC e JUC. Fui um dos que o lançamos para presidente da UNE, candidatura inviabilizada pela União Internacional dos Estudantes, entidade marxista, cuja sede era na Tchecoslováquia. Inspirei o Jarbas Juarez (quem me apresentou a seu discípulo, o Henriquinho, Henfil) a criar a SANTA CEIA DOS EXCLUÍDOS, com base na frase QUEM TEM FOME TEM PRESSA. Este lema foi adotado pelo Betinho, que o ouviu da octogenária negra Terezinha Mendes da Silva.   Betinho adquiriu AIDS em 1986, por transfusão de sangue, e faleceu em 1997.

Agora, no Natal de 2024, recebo a grata notícia de que o desemprego no Brasil caiu a 6,8%, a menor taxa da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad).  Em 2014, o país tinha saído do mapa da fome e voltou a nele entrar de 2019 a 2022. Em 2023 começou a sair. Em 2024 está bem próximo de distanciar-se definitivamente desta trágica cartografia. 


sexta-feira, 22 de novembro de 2024

 VIDAS ENTRELAÇADAS DA DONANA












João Amílcar Salgado

Jurgen Moreira Behring é meu ex-aluno e amigo muito especial por ser um clínico comunitário, ecologista e historiador. Presenteou-me com um livro adorável: “DONANA – VIDAS ENTRELAÇADAS” (2015), de sua avó Rosalina Moreira das Mercês. Os lindos olhos azuis da Donana provavelmente vêm de Evreux, França, ou seja, dos Abreus, iguais aos olhos azuis de meu avô João de Abreu Salgado. Tão grato quanto isso é saber que a Donana nasceu em Xopotó, nome delicioso que prefiro para designar a cidade de Cipotânea. Além de parente de minha querida dentista Elisangela de Abreu, cuja alta competência reúne amor e humor, Donana é comunícipe de meus colegas médicos e historiadores Geraldo Barroso e Luiz de Carvalho, ao lado dos quais é forçoso incluir o fantástico padre José Pinto Carneiro. Recomendo não só o livro “VIDAS ENTRELAÇADAS‘ como os livros, do Geraldo, “CIPOTÂNEA – UMA HISTÓRIA ALEGRE”, “REIS, PAPAS E LEPROSOS” e  “MEU SANTO PROTETOR” e, do Luiz,  “A HISTÓRIA CLÍNICA DE POETAS BRASILEIROS” e “HISTÓRIA DA ANATOMIA”.

Os Behring estão nesse entrelaçamento. E lembro que recebi, menino, soro antidiftérico, inventado pelo eminente cientista Emil Behring, em 1893, aplicado, em minha barriga, pelo notável clínico Bolivar Barbosa. Esta família prussiana se tornou mineira, imigrando para Viçosa. Além dos Abreus, uniu-se aqui aos Bernardes, outro ramo de origem francesa, também presente em Nepomuceno. Por outro entrelace, lembramos que o ramo Campolina, do esposo da Donana, é ligado aos Vilela, Ribeiro e Resende, tradicionais nepomucenenses. Em adição, a família se liga aos Procópio e aos Espínola, também da nossa maior estima. 




 GERALDO MARCELO LEMOS GONÇALVES E SUAS RAIZES, CAULES E FRUTOS

João  Amílcar Salgado

Os mineiros descendemos dos índígenas caiapós que apelidei de índios oradores e assim, ao lado do maravilhoso pregador Santo Antônio, explicam o brilho dos oradores nepomucenenses. Os mineiros também são renomados memorialistas e memorialista em Minas significa orador de outra forma. Já os historiadores oficiais de Minas são memorialistas envergonhados, como observei a Pedro Nava, vergonha que explano em outro lugar. Digo tudo isso diante do excelente livro MINHAS RAÍZES, MEU CAULE E MEUS FRUTOS de Geraldo Marcelo Lemos Gonçalves. Se cada família mineira exibisse um livro como este, seríamos detentores de inexcedível patrimônio cultural. Sim, Minas prima por gratas surpresas como esta, quando encontro um autor de fino humor, lapidado como ágil ironista e como requisitado orador. Basta isso para comprovar, à plena, a verdade tão mineira da múltipla riqueza de nossas letras.

Geraldo é dentista, como tal é colega de Tiradentes e é diplomado na faculdade criada em Diamantina por JK. No centro de Memória da Medicina demonstramos o erro de designar Tiradentes como dentista prático, pela simples razão de que naquela época não havia o ensino formal da odontologia, nem no mundo nem aqui. Na verdade, a cidade natal deste médico receberia uma faculdade de medicina, mas a classe médica era udenista e o impediu. Pedro Paulo Penido, o dentista amigo do diamantinense, desde o túnel de Passa-Quatro, propôs substituir a medicina pela odontologia. No projeto do governo federal de Tancredo fiz incluir o curso de medicina negado a JK, ideia só recentemente concretizada.

A militância maçônica do Geraldo é oportunidade para que eu faça uma homenagem a Jorge Lasmar, citado em meu livro O RISO DOURADO DA VILA (2020). Conheci-o dirigente do Instituto Histórico e descobri que era primo dos Lasmar de Nepomuceno, além também de líder maçônico. Matei velha curiosidade, quando, através de sua autoridade, levou-me ao recinto recluso dos maçons. A ocasião era muito propícia, pois o Centro de Memória da Medicina, representado pelo notável pesquisador Paulo Gomes Leite, iria revelar ali fatos inéditos da maçonaria ligados à Inconfidência.