João Amílcar Salgado

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

 


ISAURAS DA VILA

João Amílcar Salgado

A Vila não conta com muitas Isauras. A inesquecível professora Isaura Assunção deu-me a primeira aula no grupo escolar. Mestra no mais límpido sentido, com que carinho, com que simpatia nos acolheu naquele dia primordial! Outra mais recente é a bela Isaura Mendonça, filha do casal Lazinho e Teresinha, gente muito estimada desde longo tempo. Duas outras não são Isauras, mas as apelidei de as “Escravas Isauras” da Vila.  A primeira é Isabel de Souza, filha do padre Tomás de Souza, e a segunda é Mariana Januária de Jesus, filha do Cônego Menezes.

Durante a escravidão, os homens da casa-grande e seus auxiliares engravidavam as escravas e as filhas mestiças continuavam escravas ou excepcionalmente eram criadas como filhas ou “afilhadas”, pelo pai biológico ou “padrinho”. Em Nepomuceno, pelo menos quatro filhas de escravas vieram a ser matriarcas de queridas famílias tradicionais. Todas foram criadas com carinho, mas duas delas foram excepcionalmente educadas por genitores sacerdotes, coincidentemente sucessivos dirigentes da futura matriz da Vila. Isabel Maria de Souza, filha do padre Tomás de Souza, casou-se com Francisco Alves Garcia, o célebre Chico Frade. Mariana Januária de Jesus, filha do Cônego João Evangelista de Menezes, casou-se com João Inácio de Castro Dias, codirigente da Vila. No caso da Escrava Isaura, na trama ficcional de Bernardo Guimarães, ela foi submetida à violência de seu novo proprietário.  Isabel e Mariana, ricas herdeiras, ao contrário, viveram felizes no seio da comunidade nepomucenense. É imperativo que o nome da mãe de ambas (também da mãe de meu tetravô Casaquinha e das demais mencionadas) seja conhecido.

Vale assinalar que a primeira mulher advogada no Brasil, é uma negra ex-escrava que coincide ter o sobrenome Garcia. Seu profético nome é Esperança Garcia. Nasceu no Piauí cerca de 1751. Escreveu uma petição (leia-se o manuscrito preservado) ao governador Gonçalo Botelho de Castro, solicitando que ordenasse ao feitor da Fazenda Algodões cessar os espancamentos de seu filho e de sua gente. Por outro lado, na história da medicina brasileira foi motivo de polêmica a questão das mães-pretas ou mães-de-leite. Muita gente importante foi amamentada por mãe-preta. Minha mãe é irmã-de-leite de nosso primo Guaraci Lopes Cançado.

Por último, mas de não menor importância, o ouropretano Bernardo Guimarães teve herdeiros sulmineiros. Seu filho Pedro Bernardo e seu neto Armelim Bernardo, ambos engenheiros, são também ilustres historiadores de Itajubá, sendo um itajubense adotivo e o outro nativo. Ambos, como eu, são de uma categoria imprescindível, os historiadores municipais.

 

 

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